Síntese Reflexiva das Aprendizagens
No que concerne à enfermagem, a prática reflexiva inicia-se quando surgem problemas na prática dos praticantes, quando os mesmos problematizam a sua prática, aprendem novos conhecimentos, habilidades e atitudes (Jarvis, 1999 como referido por Peixoto & Peixoto, 2016, p.122). Assim, a prática reflexiva, baseia-se nas atividades intelectuais e afetivas, onde os envolvidos exploram as suas experiências com o objetivo de concretizar uma nova compreensão (Boud, Keogh, & Walker, 1985 como referido por Peixoto & Peixoto, 2016, p.122). O modelo de prática reflexiva, incentiva então o desenvolvimento das teorias cognitivas e afetivas de comportamento moral e ético, desafiando os envolvidos a integrar estes novos conceitos nos seus sistemas de crenças pessoais, como resposta das suas experiências, em vez de apenas absorverem passivamente as regras de conduta profissional (MacFarlane, 1998 como referido por Peixoto & Peixoto, 2016, p.122).
Durante o percurso desafiante do curso de enfermagem, deparei-me com uma variedade de aprendizagens, desafios e contributos que, de forma intrínseca, marcaram a minha trajetória académica e pessoal. As experiências teóricas e práticas complementaram-se, oferecendo-me uma visão global da profissão. Ao lidar com obstáculos, desde a exigência técnica até aos desafios emocionais, fui construindo resiliência e aprofundando a minha compreensão sobre o impacto inerente à prática de enfermagem.
Os momentos desafiadores, não se revelaram apenas obstáculos, mas também oportunidades de desenvolvimento. A convivência com os meus colegas, docentes e, sobretudo, com os utentes proporcionou uma diversidade de perspetivas que ultrapassaram o mero domínio técnico. A empatia tornou-se uma habilidade essencial. Os contributos significativos dos mentores, colegas e vivências práticas reforçaram não só as competências técnicas, mas também a minha vocação para o cuidar.
O REPE, é um conjunto de diretrizes e normas que encaminham os requisitos necessários para a correta prática de enfermagem e desempenham um papel fulcral para a saúde pública, na promoção da qualidade dos cuidados de saúde e na sustentação para a prática orientada para um código de ética e responsabilidade dos profissionais.
De acordo com o Decreto-Lei n.º 161/96, de 4 de setembro, "O presente diploma clarifica conceitos, procede à caracterização dos cuidados de enfermagem, especifica a competência dos profissionais legalmente habilitados a prestá-los e define a responsabilidade, os direitos e os deveres dos mesmos profissionais, dissipando, assim, dúvidas e prevenindo equívocos por vezes suscitados não apenas a nível dos vários elementos integrantes das equipas de saúde, mas também junto da população em geral".
Segundo o Guia ECIO I e II - Cuidado Gerontogeriátrico em Contexto de Longevidade, é referenciado o Referencial de Competências do aluno licenciado pela ESEnfC. Neste referencial, abordam-se as competências e domínios referenciados no Regulamento nº 190/2015, de 23 de abril que define o Perfil de Competências do Enfermeiro de Cuidados Gerais. Este referencial é constituído por 6 competências sendo elas: A) Gerir conhecimento; B) Gerir recursos operacionais; C) Comprometer-se com o desenvolvimento profissional; D) Conhecer e gerir projetos de cuidados; E) Estabelecer uma relação profissional e F) Implementar cuidados autónomos e/ou interdependentes.
No decorrer destes 4 anos, tive oportunidade de desenvolver várias competências nos diversos contextos onde estive inserido, assim como, nas unidades curriculares lecionadas e através do meu estudo e trabalho autónomo. Assim, relativamente à gestão de conhecimento, que diz respeito à análise, pesquisa, construção e mobilização de conhecimentos para o desenvolvimento pessoal das práticas profissionais, da disciplina e dos sistemas de saúde, adquiri um grande leque de capacidades no âmbito da utilização da TIC, através do uso de gestores de bibliografia e, embora necessite de obter mais prática, do registo de informações no Sclínico; geri dados e informação ao longo da criação de documentos académicos solicitados, através da recolha, pesquisa e organização dos dados; refleti na ação e sobre a ação nas diversas reflexões críticas elaboradas.
No que toca à competência de gerir os recursos operacionais, na qual é pretendido ao aluno que mobilize recursos e decida a sua utilização de forma racional com vista a responder às necessidades das pessoas, famílias, comunidades e organizações, desenvolvi vários planos de cuidados, projetos e atividades, tendo em vista o bem-estar e saúde dos utentes; na gestão de conflitos relacionais, capacidade que desenvolvi ao longo dos EC realizados, que me permitiram desenvolver eficazmente o meu controlo emocional, a minha disponibilidade para a mudança e adaptação a diferentes equipas e maneiras de trabalhar; na gestão da utilização de materiais, equipamentos e tecnologias, agradeço a todos os enfermeiros que participaram no meu percurso académico pois, foram estes os grandes facilitadores na minha aprendizagem tendo incutido em mim vários ensinos sobre a utilização de materiais sem os desperdiçar, adaptando-me sempre de acordo com a situação e com o custo/beneficio, e , garantindo não só a minha segurança como a segurança do utente a quem estou a prestar cuidados e a dos restantes profissionais; e, por último, na gestão do ambiente físico desenvolvi competências fundamentais para garantir um espaço seguro, funcional e adaptado às necessidades de cada utente, garantindo conforto e privacidade ao mesmo, respeitando assim o código deontológico que rege a profissão de enfermagem. Apesar disto, ainda não desenvolvi por completo a capacidade de delegar e supervisionar tarefas, pois, apesar de identificar tarefas que podem ser elaboradas, ainda não adquiri uma atitude assertiva de o fazer por sentir alguma insegurança.
Enquanto à competência comprometimento com o desenvolvimento profissional, assumi um papel ativo no meu próprio desenvolvimento, adotando várias vezes uma posição reflexiva e ética para a promoção dos melhores cuidados. Esta competência em diferenciação das outras, depende apenas de nós alunos, da nossa vontade de querer aprender para mobilizarmos cuidados de qualidade. Para isto, investi na minha autoformação, fazendo várias pesquisas que procurassem enriquecer os meus conhecimentos, dando-me empoderamento e confiança no momento da prática.
Ao longo do meu percurso de enfermagem, desenvolvi competências fundamentais na conceção e gestão de projetos de cuidados. Foi-me possível compreender a importância de criar planos de cuidados adaptados e centralizados a cada pessoa, fomentando em mim a relevância da abordagem centrada na pessoa, procurando não apenas soluções imediatas, mas também resultados duradouros que se enquadrassem do dia a dia da pessoa. Esta competência, foi bastante trabalhada e desenvolvida nos diversos ensinos clínicos, nos quais tive se situar o contexto no sistema de saúde de forma a adaptar os cuidados ao mesmo. Para além disso, quando elaborei planos de cuidados, foi fulcral colher dados clínicos; analisar os dados clínicos que obtinha; estabelecer os diagnósticos de enfermagem; prescrever intervenções de enfermagem; planear os cuidados; e avaliar o resultado das intervenções.
No que concerne à competência de estabelecer uma relação profissional, que está relacionada com a interação de acordo com os papéis, respeitando e fazendo-se respeitar, no estabelecimento de uma relação de confiança e positiva, através de uma comunicação eficaz. Sempre estabeleci e dei importância a uma boa relação de confiança com os docentes, colegas e equipa onde estive integrado, pois é fulcral uma boa relação para colaborar eficazmente, promover um relacionamento cordial e realizar cuidados de saúde seguros e de qualidade. Para além disso, também é da mesma importância, estabelecer uma comunicação terapêutica com os utentes, realizar escuta ativa e considerar a pessoa num só para conseguirmos promover cuidados centralizados.
Por último, a competência de implementar cuidados autónomos e/ou interdependentes, que diz respeito a agir com pessoas, famílias e comunidades, levando sempre em consideração as respostas aos processos de vida e situações de saúde-doença. Segundo a REPE, Decreto-Lei nº 161/96, de 4 de setembro, Artigo 9.º alinha 2 "Consideram-se autónomas as acções realizadas pelos enfermeiros, sob sua única e exclusiva iniciativa e responsabilidade, de acordo com as respectivas qualificações profissionais, seja na prestação de cuidados, na gestão, no ensino, na formação ou na assessoria, com os contributos na investigação em enfermagem". E alinha 3 "Consideram-se interdependentes as acções realizadas pelos enfermeiros de acordo com as respectivas qualificações profissionais, em conjunto com outros técnicos, para atingir um objectivo comum, decorrentes de planos de acção previamente definidos pelas equipas multidisciplinares em que estão integrados e das prescrições ou orientações previamente formalizadas". Para tal, realizei ações de promoção da saúde, de prevenção de doenças e realizei ações de enfermagem resultantes da minha própria iniciativa ou por pedido de outros profissionais da equipa, respeitando sempre a privacidade, intimidade e respeitando principalmente os princípios ético-deontológicos ao longo. Ao longo do meu percurso académico, tive oportunidade de realizar inúmeros procedimentos tais como, colheitas de sangue, preparação de terapêutica, entubação nasogástrica, algaliação vesical, aspiração de secreções, colheita de espécimes e realização de tratamento à ferida. Destaco ainda a falta de prática em alguns procedimentos tais como a colheita de sangue, mas tenho perfeita noção que tenho os conhecimentos necessários para realizar este procedimento autonomamente e com mais confiança.
Para contextualização, este é o meu segundo EC que realizo no contexto de idoso, onde me proponho mais uma vez em aprimorar ainda mais as minhas competências acima referidas, de modo a priorizar cuidados holísticos, respeitando sempre a dignidade da pessoa, com o auxílio de uma comunicação adequada e eficaz.
"O enfermeiro exerce atribuições fundamentadas na esfera da saúde humana, evidenciando cientificamente os parâmetros técnicos mesclados a um conjunto de práticas éticas, sociais entre outras no cuidado ao paciente idoso. No parâmetro geral, destaca-se o respeito à dignidade humana, retratando o bem-estar assistencial, englobando bases éticas e morais na relação com o idoso, para a sustentação de sua prática profissional, atuando na promoção, recuperação e prevenção na qualidade de vida da pessoa, família e coletividade". (Silva & Andrade, 2020, p.198)
Concluindo, estes quatro anos foram uma mais valia para mim, não enquanto pessoa mas também como futuro profissional, não só em termos de conhecimento técnico, mas também despertaram em mim outros sentimentos importantes para a minha prática tais como a compaixão, empatia, respeito e resiliência.

